AO MESTRE (da madeira), COM CARINHO: JOSÉ ZANINE CALDAS

“No final, é a paisagem que conta... A casa deve estar ligada com tudo aquilo que se encontra ao redor dela, nem deformar, nem violentar. Deve-se parecer como se ela existisse desde sempre.” Zanine

“O melhor lugar do mundo para se morar é uma casa de Zanine”. Tom Jobim

No Brasil nascem pessoas curiosas, como alguém que não é arquiteto, mas fez casas maravilhosas; um que não é designer, mas fez móveis incríveis e outro que não é professor, mas teve muitos alunos e discípulos na universidade e fora dela. Uma dessas pessoas foi José Zanine Caldas, que não foi e foi tudo isso ao mesmo tempo e ainda nos deixou um legado de perseverança, ideal e filosofia ecológica, muito antes que essa onda assolasse o mundo. No entanto, vamos expor aqui apenas uma parte da sua obra salutar, genial e humanitária, o seu Design de moveis.

Zanine começou a fazer Design no final da década de 1940, em plena gestação do móvel brasileiro moderno e do inicio da primeira manifestação da globalização do Design do objeto de uso, com os malfadados e ao mesmo tempo, interessantes, os moveis “pés de palito”. Durante década de 1950, Zanine desenvolveu os seus moveis para a classe media que ascendia, socialmente e precisava seguir as modas vigentes sem gastar muito. Ao usar bastante a placa de compensado, um material que embora já existisse in1dustrialmente desde o inicio do século XX, foi após a segunda guerra mundial que começou a se proliferar no Brasil por indústrias estabelecidas no sul do país.  Apesar de ter durabilidade menor que a madeira maciça, Zanine viu as possibilidades de usá-lo na confecção de moveis de médio custo e então ele usou e abusou das curvas estruturais sempre usadas lateralmente e amarradas por parafusos com cabeças aparentes. Esse processo de desenvolvimento formal por estruturas laterais amarradas por travessas de madeira maciça permitiu a Zanine um campo vasto de possibilidades modelares em vários segmentos de uso do mobiliário.

As imagens abaixo bem demonstram isso, principalmente os moveis que foram desenvolvidos e fabricados, entre 1948 e 1960, entre 1948 e 1960 pela empresa da qual Zanine era sócio, a Moveis Artisticos Z (Zanine, Pontes e Cia. Ltda). As peças laterais, geralmente feitas de placas recortadas de compensado naval (mais durável), tinham curvas características para cumprir a função estrutural e determinavam a forma básica do modelo. A forma do modelo era a sua lateral, o seu perfil. Nelas Zanine brincava de multivariar os modelos, fazendo-os diferentes e assim conseguia diversificar a produção sem alterar substancialmente os custos e métodos de fabricação.

A Multivariação Formal ficava implícita com esse método de desenvolvimento formal e Zanine a usava como conhecedor das possibilidades de diversificação modelar, sem interferir nos custos e na gestão da produção. Tanto assim que a Moveis Artísticos Z não se notabilizou por alguns poucos modelos fantásticos, mas exatamente pela diversificação formal e de uso.

Outra característica interessante é que Zanine já praticava desde a segunda metade do século um Design para todos e sustentável, pelos baixos custos, materiais com baixo teor de carbono e de confecção simples. E ficou uma marca, sem ser necessariamente um “estilo” Zanine. Esse é o grande legado que ele deixou ao Design brasileiro que começava a entrar na modernidade no começo dos anos 1950.

Por contradição, o que ficou no imaginário de todos é que o Zanine fazia moveis artesanais, com madeira maciça retiradas de queimadas ou arvores mortas. Isso ele fez, muito tempo depois,na década  da globalização e do liberalismo econômico de 1970, quase como um escárnio e repudio ao que o mundo e o Design estavam se tornando. Ele não tinha com enfrentar o poder econômico da mesmice e partiu para o isolamento e a obra pessoal e restrita, cara no preço, demorada na confecção e exclusiva para poucos.

Essa foi a marca Zanine que infelizmente nos chegou, uma engano atroz porque desde cedo ele pensava em todos, na preservação das florestas e na simplicidade da explosão da vida. Era e praticava um Design humanitário. Um visionário pela Mutltivariação Formal dos seus moveis dos anos 1950s e um sonhador nos seu moveis exclusivos dos anos 1970s.

AVE ZANINE, MESTRE DA MADEIRA!

POLTRONAS E CADEIRAS

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Fig.1-Cadeira em X, em placa de compensado e de estrutura de madeira maciça, 1948.

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Fig. 2-Poltrona Boomerang, 1950s em compensado e madeira maciça; a forma expressa a função, o resto é apoio e conforto.

 

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Figs. 3 a 5- Mesmo com as limitações de fabricar modelos em série a Moveis Z(repetir o mesmo modelo em quantidades), Zanine brincava com Multivariação Modelar ao manter a mesma Estrutura Formal, mas modificando os estofamentos em cor, textura, volume, material e forma.

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Fig. 6- Nessa poltrona a forma como determinante estrutural é descontinua e bastante estranha para a estética atual. Mas funcionava, com cada coisa em seu lugar.

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Figs.7/8- Esse modelo de poltrona  com a estrutura lateral em semi-X e com apoio  para o braço é  a marca registrada do trabalho de Zanine da época, mas também demonstra que mesmo na industria era preciso variar o modelo para se manter no mercado e exibir versatilidade produtiva, como na figura abaixo. 

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Fig.9 – Então o semi-X mudava de lado e se tornava uma peça única pelo uso do compensado recortado. A segunda imagem revela outra faceta de Zanine, uma poltrona estofada simples apoiada e amarrada por uma estrutura de madeira maciça aparente.

E o Mestre explorava as estruturas laterais como ninguém o fez, dando-lhes para cada função de uso uma forma peculiar. Era sempre assim: peças recortadas diretamente no compensado diretamente ou unidas por engaste, e amarradas transversalmente com ripas ou barrotes de madeira maciça e com a Relação Assento-Encosto no meio. Na verdade era um processo de Multivariação Formal, não apenas um jeito peculiar do autor de desenvolver cadeiras e poltronas. O modelo em cada caso surgia pela necessidade de produção e de mercado, num momento de equilíbrio do sistema. (Figs. 10 a 14)

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Figs. 10/11- O mesmo modelo podia ter vários tipos de assento-encosto e vários acabamentos, sem alterar substancialmente os custos e os métodos de fabricação.

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Fig.12- A forma marcante da estrutura se amenizava pela colocação suspensa do encosto, dando ao modelo uma leveza incomum.

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Fig.13- A obsessão de Zanine pela forma lateral tinha um fundamento: o infinito leque para a diversificação formal modelar. Aqui a forma lateral é de uma única peça recortada de compensado naval.

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Fig.14- A estrutura da chaise longue foi executada com uma peça única recortada de compensado, e embora o banquinho não tenha nada a ver com ela, revela outra faceta, a união de peças por encaixe.

VARIOS USOS

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Fig.15- O banquinho com estrutura central podia ser feito de compensado ou madeira maciça. É inusitado e único.

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Fig.16- Essa mezinha com revisteiro é uma gracinha feita em compensado. Simples, barata e útil. Ah, se o Design fosse sempre assim!

 

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Fig. 17- No entanto, essa outra de mesma função de uso arrisca na forma e na estrutura; nos encaixes e no uso. Parece um bicho solto no ambiente. Legal!

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Fig. 18- Nessa mesinha a simplicidade construtiva chega a frugalidade estética e ao custo baixo. Um Design para todos

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Fig.19- Zanine também partia para a pureza da simplicidade contida na linha reta. Deve-se notar, no entanto, que a peça usada para estruturar e apoiar, aparece em outros modelos, como no bar abaixo.

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Fig.20- Do modelo menor da imagem anterior para o maior nessa; muda o uso, mas o conceito é o mesmo. Isso é Multtvariação Formal, meu!

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Fig. 21- Em 1950, Zanine fazia de tudo na fabrica e a primeira manifestação global da forma do objeto de uso do após guerra começava a imperar. Era uma espécie de “estilo” americano-fauvista-cafona nessa época indefinição estética do Design.

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Fig.22- Então, em 1954, os pés de palito se prontificaram e junto com a curva da indecisão estética, a peça se apresentava impoluta e correndo por fora como se fosse uma obra de arte, e sofreu até chegar ao pop dos anos 1960s.

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Fig.23- Mesmo seguindo uma linha formal e construtiva, Zanine espelhava modernidade em seus projetos. A atemporalidade dessa escrivaninha é indiscutível.

 

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Fig. 24- Ate nos parece estranho hoje em dia essa formas recortadas e apoiadas em pés pontudos, porem elas nos dão o testemunho da época em que a forma no Design podia ser tudo que saltasse aos olhos.

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Figs.25/26- Com a chegada da modernidade da linha reta no móvel brasileiro do final dos 1950s e começo dos 1960s, Zanine também aderiu a ela, desenvolvendo peças simples, juntando a madeira com o couro.

O JEITO ZANINE QUE FICOU NA MEMORIA

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Figs.27 a 30- O móvel ecológico foi o tema da sua ultima fase como designer e esculpia a madeira encontrada nas matas e nos depósitos para dar-lhe nova vida e uso. Eram coisas simples, mas belas e úteis. A famosa Namoradeira, na ultima imagem, retrata bem o trabalho do Mestre.

 

RESUMO BIOGRAFICO

Bahiano de Belmonte (1919), uma cidadezinha do sul do estado incrustada no meio da mata atlântica, quando criança era apaixonado por madeiras e serrarias. Começou aos 13 anos a fazer presépios de Natal para os vizinhos usando caixas de papelão contendo seringa do pai médico. Depois tomou aulas de desenho com um professor particular e em 1937, foi para São Paulo, trabalhar como desenhista numa construtora. Dois anos depois abriu sua oficina de maquetes no Rio de Janeiro e trabalhou para importantes arquitetos no inicio do modernismo brasileiro, como Lúcio Costa, Oswaldo Arthur Bratke e Oscar Niemeyer. Foi o inicio do seu aprendizado na arquitetura.  Em 1948, funda em São José dos Campos, SP, a Moveis Artisticos Z (Zanine, Pontes e Cia. Ltda) uma sociedade entre Zanine, Sebastião Henrique da Cunha Pontes, Paulo Mello e Hellmuth Schicker. E virou designer de moveis, em plena era do nascimento do mobiliário tipicamente brasileiro, apesar das influencias do Design ocidental do pós-guerra onde predominava os “pés de palito”. A empresa funcionou por 12 anos, até ser destruída por um incêndio em 1961.

E ai foi para em 1960 Brasilia virar professor sem diploma na universidade que ajudou a fundar com Darcy Ribeiro e outros grandes mestres. Com o golpe militar de 1964 perdeu o cargo, tendo sido reintegrado apenas em 1987, sem voltar a dar aulas. Perseguido pelos militares Zanine se isolou e só reapareceu ao final dos anos 60 construindo casas no bairro de Joatinga, no Rio der Janeiro com material de demolição.  Realizou no Rio, em Brasilia e em outros lugares uma arquitetura ao mesmo tempo colonial moderna e materiais naturais, a preservação do meio ambiente e o conceito de autoconstrução.Integrava os seus projetos à topografia natural dos terrenos e nunca aterrou ou alterou solos para receber suas casas, e como arquitetura deve ser a arte da surpresa, de repente deixava uma grande pedra no meio da sala ou uma arvore frondosa cortando uma varanda coberta.

Nos anos 1970 voltou as origens em Nova Visçosa, Bahia. Além de criar a Pastel Viçosa contribuindo com a cultura gastronômica local, Zanine passa a fazer moveis artesanais esculpidos em madeira maciça, negando assim a sua tradição industrial da Moveis Z e afirmando o seu conceito arquitetônico artesanal. Em 1980, fundou o Centro de Desenvolvimento das Aplicações da Madeira (DAM), um núcleo de estímulo à pesquisa sobre o uso das madeiras brasileiras na construção civil no sentido sustentável e para evitar a crescente destruição das florestas no país. Durante muitos anos, Zanine sentiu na carne por não ser um profissional diplomado, embora reconhecido como tal por arquitetos importantes e chegou a ser impedido pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) para realizar os seus projetos. Mas em 1991, pelo domínio da técnica e materiais Zanine acabou sendo reconhecido como arquiteto honoris causa e recebeu das mãos de Lúcio Costa , -i um dos seus defensores -  o merecido título.

Tanto assim que teve reconhecimento internacional e no final da década de 80, seu trabalho foi exposto no Museu do Louvre. No mesmo período, deu aulas na escola de arquitetura de Grenoble. Zanine morreu de enfarte em 2001, aos 82 anos, deixando para a posteridade seis casamentos e três filhos.

FONTES:

Wikipedia

Museu do Objeto Brasileiro

Istoé

Itaú Cultural

Estadão.

Correio Brasiliense

www.decoeuracao.com

http://pt.wikipedia.org/wiki/Zanine_Caldas

www.tecto.com.br

www.lojateo.com.br

www.lucianocavalcanti.arq.br

www.bolsadearte.com

www.casaeimoveis.uol.com.br