CADEIRAS DE BALANÇO : EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DESIGN
Como muitos dos objetos de uso seculares não se sabe precisamente qual a sua origem e a cadeira de balanço é uma delas. Ela provavelmente surgiu em função do conforto e relaxamento causado pelo balanço ritmado numa peça de mobiliario de deitar ou de reclinar em contato com o chão, seja qual tenha sido o tal movel. Podia ser um tronco curvo, um galho longo ou mesmo uma laje de pedra onde a parte superior fosse plana e a de baixo em curva, num arco cujo angulo fosse adequado para causar o movimento cadenciado e sem exageros na rotação. A Cadeira de Balanço é uma categoria de uso especial, ela é mais do uma simples cadeira ou poltrona fixa, requer mais conforto e segurança e tem um conceito e construção formal proprio.
Consideramos inicialmente aqui como “cadeira de balanço” aquelas que tem um movimento ondulatório no sentido longitudinal de sentar, o vai e vem do corpo se balançar seguindo um arco de apoio situado na base cadeira. Existem outros movimentos de uma pessoa se balançar sentado, reclinado ou até mesmo deitado num movel, como também de fazer movimentos em torno de um eixo e até no sentido transversal de uso, mas essas categorias de uso serão vistos posteriormente. Os modelos mistos de cadeira de balanço e lounge chair, também serão abordados depois.
O que se sabe é que o movimento de balanço foi aplicado primeiro nos berços para os bebes dormirem por volta do século XV e em seguida nos brinquedos de cavalo e o “rocker” ( dai vem o nome em inglês, rocking chair) era a pessoa encarregada de balançar o berço dos bebes. Berços pintados pelos artistas renacentistas, Piero Dela Fransesca e Andrea Mategna mostram o pequenos moveis com o movimento de balanço para os bebes dormirem. (Figs.1 e 2)
Fig.1 e 2 - Detalhes das pinturas de Piero D. Francesca e Andrea Mantegna, sec. XV
Para uso dos adultos este uso especifico da cadeira surgiu no século XVIII, provavelmente pelos ingleses, que a levaram para os EUA e lá se difundiu. Na verdade, ninguem sabe que foi o primeiro a adaptar o arco de movimento na base de uma cadeira comum. Os historiadores só poderam rastrear as origens da cadeira de balanço na América do Norte durante esse seculo. Elas foram originalmente utilizadas em jardins e varandas e eram de inicio cadeiras comuns um pouco mais alongadas, nas quais apoiavam-se a pontas dos 4 pés em arcos de madeira para o movimento de balançar. Umas das poucas cadeiras desse tipo que sobraram desse periodo data de 1710. (Fig.3)

Fig.3 - Cadeira do estilo yorkshire adaptada para balanço, 1710
As cadeiras Windsor, como ficaram conhecidas, surgiram perto do castelo de Windsor no início dos anos 1700. Estas cadeiras são caracterizadas por um espaldar dobrado para trás em curva e finos raios de madeira atrelados diretamente no assento. Eram cadeiras com Design leve que aparentavam fragilidade,mas a estrutura composta de varias peças finas de madeira davam a rigidez e a resistencia necessaria para o uso a que se propunham. Por volta de 1750 eram amplamente utilizadas nas fazendas e residencias urbanas americanas. Devido a isso podemos considerar os colunos americanos como os primeiros designers da historia a desenvolverem tipicas cadeiras de balanço. (Figs. 4 a 6)
Fig. 4 - Windsor inglês, 1740 | Fig.5 - Windsor americana, 1770 | Fig.6 - 1775
A cadeira de balanço feita de vime foi outro projeto popular criado nessa epoca. A produção de cadeiras de balanço e outros moveis de vime atingiu o seu pico nos Estados Unidos nos meados do século XVIII. Eram popularmente conhecidos os artesãos de vime e ficaram famosos por suas habilidades na confecção de objetos com esse material e desenhos criativos. Em 1787, a “rocking chair” apareceu pela primeira vez no dicionario de Oxford.
A partir de 1800, com o avanço da revolução industrial, as cadeiras de balanço começaram a ganhar mercado na Europa e EUA. Não mais se restrigiam a estilos ou maneirismos obtidos pela adequação de uma cadeira fixa ao arco de balanço e se diversificaram em forma e construção. Mas foi nos EUA que essa categoria de cadeira se espalhou em termos multiformais. Ganharam até nomes apropriados, - como os carros que surgiram só no seculo seguinte-, segundo as caracteristicas do Design, da região específica e da cidade onde eram fabricadas. A forma Shake se disntiguia das demais por usar nos espadaldares com peças de madeira no sentido horizontal (Figs. 7 a 11)

Fig.7 - Cadeira rústica canadense, 1825 | Fig. 8 - “Birdcage”, 1800 | Fig.9 - Shaker, 1820 | Fig.10 - Boston, 1840 | Fig.11- Salem, 1840
O vime como material já era utilizado desde o imperio romano e esse material flexivel foi usado na Europa para a fabricação de cestos e moveis. A primeira cadeira de balanço de vime surgiu na Inglaterra, mas foi nos EUA que o uso desse material se propagou para combater a importação europeia, e essa concorrencia favoreceu o Design e a produção nas regiões americanas onde esse material era abundante e barato. Surgiram então muitos modelos desenvolvidos com vime nos EUA no seculo XIX. Eram modelos de construção esmerada e com desenhos floridos e formalmente diversificados. (Figs. 12 e 13)
Figs. 12 e 13 - Cadeiras de vime Heywood e Wakefield, 1850s
Outro material muito utilizado pelos colunos americanos eram os galhos do Adirondack, uma arvore originaria da Inglaterra. Maleavel, barato e duravel embora de aparencia rustica, o adirondack sozinho ou combinado com outros materias naturais, forneceu a partir da metade do século XIX bons e bonitos exemplos de cadeiras de balanço feitas de forma artesanal. Não seguiam um Design com um estilo conhecido ou que revelasse uma tendencia formal. Eram peças exclusivas e possivelmente de modelo único e de acordo com a criatividade e cultura local do artesão. Simples, diferentes, rusticas e multivariadas formalmente e detalhes de construção bem interessantes. ( Figs.14 a 17)
Figs. 14 a 17 - Modelos diversificados feitos de adirondack e junto ou não com outros materiais, sec. XIX.
A partir da metade do seculo XIX com a famosa Feira Mundial na Inglaterra em 1851, a historia da cadeira de balanço começa a mudar. A Revolução Industrial já era uma realidade e embora o Design continuasse preso as formas dos estilos tradicionais, o modernismo foi aos poucos surgindo e a cadeira de balanço foi uma das categorias dos objetos de uso que seguiu essa nova abordagem formal e conceitual. Os marcos dessa mudança foram dois: os produtos de caracteristicas multiformais de Thonet e a cadeira de ferro dobrado de Peter Cooper.
Thonet foi um dos precussores em industrializar as cadeiras de balanço. (Figs. 18 a 20)
Figs. 18 a 20 - Primeira cadeira de balanço Thonet, 1860; a N. 10, 1880 e a de 1902
Mas foi o modelo em ferro dobrado desenvolvido por Peter Cooper que inaugurou o Design Moderno da cadeiras de balanço, ainda na metade do seculo XIX. Um Design primoroso e inovador para a época. Não devendo nada as que são produzidas atualmente em termos de ergonomia, material, feitura e forma.. (Fig. 21)

Fig.21 - Cadeira em ferro de Peter Cooper, 1850
Enquanto Thonet revolucionava com o seu processo industrial de dobrar os bastões de madeira e Peter Cooper decretava o inicio da nova era formal para o Design da cadeira de balanço, os modelos de caracteristicas formais classicas se misturavam com outros de tendencias mais modernas em varias partes do mundo. As duas ultimas décadas do seculo XIX trouxeram a afirmação dessa categoria de movel e o Design surgia já com caracteristicas formais modernas e de tecnologia variada.(Figs. 22 a 25)
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Figs. 22 a 25 - Para criança em folhas de madeira moldadas, 1883; em bastões dobrados como Thonet de Jacob e Josef Kohn, 1869; seguindo o estilo Chippendale, 1880; e a Carved Rope Twist , uma mistura de estilos de 1890.
O seculo XX entra na modernidade movido pelos movimentos artisticos que surgiram nas ultimas décadas e o Design da cadeira de balanço surge altaneiro e desafiador. Seja no lindo Design Art Nouveau de Henry Van de Velde, na ousadia formal e construtiva de Antonio Volpe, na simplicidade formal de um designer anonimo e até no exagero formal e de conforto de Lloyd Loom. (Figs. 26 a 29)
Fig. 26 - Ar Nouveau, H. Van de Velde, 1904. | Fig.27 - Egg, Antonio Volpe, 1910. | Fig.28 - Desconhecido | Fig.29 - R61, Lloyd Loom, 1922
Com o fenomeno do Design Moderno da Bauhaus, as coisas formais de uso tomaram outros rumos. O uso do tubo de aço inoxidavel virou uma febre por parte dos designers funcionalistas e a madeira tecnicamente já usada há seculos recebeu novos tratamentos tecnologicos. O curioso é que a cadeira de balanço não foi umas das categorias de uso preferidas pelos designers bauhasianos e só alguns poucos modelos foram desenvolvidos nessa época. Na simplicidade formal e na beleza do movimento expresso pelas curvas,em metal ou madeira: (Figs. 30 a 32)

Fig. 30 - Atelier DIN, 1930 | Fig.31 - Hans Wagner, 1944 | Fig.32 - Sam Maloof, 1950
E foi pelo casal Eames que a ousadia de firmou, em plena guerra mundial. Novos materiais foram usados e determinaram novas formas para o especifico uso. (Figs. 33 a 35)

Figs. 33 a 35 - As famosas e insuperaveis RARs do casal Eames, desenvolvidas entre 1948 e 1951.
Depois da guerra, o Design e a produção foram aos poucos se levantando e na decada de 1950, alguns exemplos mostram essa recuperação. E de forma bastante ousada, pelo uso aprimorado dos materiais, nas formas e na inovação tecnológica surgidas pelo esforço da guerra A modernidade enfim chegara para ficar no Design da cadeira de balanço. (Figs. 36 a 38)
Fig.36 - Rapid, Ralph Rapson, 1951 | Fig.37 - Gio Ponti, 1953 | Fig.38 - Loop, Willy Gulh, 1954
Os anos 1960s chegaram junto com a explosão do consumo e culminou com o Design avançado dos italianos e escandinavos. As formas inusitidas deram o mote. Nos anos 1970s, surgiram póucos exemplos dignos de nota, mesmo assim o Design nãp foi esquecido nessa categoria de uso. A revolução formal e construtiva avançava. Até de papelão uma cadeira de balanço foi desenvolvida, a de Franck Ghery em 1972. (Figs. 39 a 43)

Fig.39 a 43 - Sgarsul, Gae Aulenti, 1962; Forenza, Motomi Ka Wakami, 1968; S826, Ulrich Bohme, 1971; Easy edges, Franck Gehry, 1972; Dondolo, Luigi Crassevig, 1976
E durante as ultimas duas décadas do sec. XX, a cadeira de balanço ao invés de avançar, retrocedeu e só alguns designers se aventuraram nessa seara e trouxeram a contemporeneidade. No final do seculo, a tecnologia da inovação passou a fazer parte do contexto do Design como um todo e a cadeira de balanço, mesmo sendo um objeto de uso peculiar, participou com alguns exemplos bem interessantes. Três exemplos se destacaram nessa nova onda formal: a Monsieur X de Philippe Starck de 1996 numa solução formal das antigas; a Peter Opsvik com a Gravity pela ousadia formal e funcional e a de Ron Arad, a esquisita Soft Heart.
A Monsiuer X é uma daquelas caratices de Starck de voltar ao passado, de fazer um Design revisitado, mas ela prima por ser de otima qualidade estética e de uso. Tem equilibrio formal e realmente parece ser uma coisa antiga. Vá lá, tem quem goste.
A Gravity Balance de Peter Opsvik é uma fantástica obra de invenção nessa categoria de uso. È ousada, bonita e de construção inusitada, embora um pouco instavel.
A Soft Heart segue a obcessão de Arad pelas curvas acentuadas e gordos volumes, mas é totalmente diferente de tudo que se fez nessa categoria de uso, ao reverter a posição do balanço, com o assento ao contrario e de ainda ter um encosto transversal como uma poltrona comum. Não é lá essas coisas todas de conforto e bem estar no balanço, mas é uma inovação formal e funcional.(Figs. 44 a 46)

Fig.44 - Monsieur X, Philippe Starck, 1996 | Fig.45 - Gravity Balance, Peter Opsvik, 1999 | Fig.46 - Soft heart, Ron Arad, 1990.
O inicio do seculo XXI veio com algum estrondo no desenvolvimento da cadeira de balanço. Num concurso internacional para lembrar e afirmar que essa catergoria de uso continua viva realizado em 2002, surgiram alguns conceitos passiveis de uso e outros idiotas. Pelo menos a ideia secular de balançar numa cadeira foi relembrado e algumas inovações formais e de construção surgiram. (Figs. 47 a 57)
Fig.47 - Rocking bench, Heidi Winge Stroem | Fig.48 - Rookie, Juan Carlos Ruiz | Fig.49 - Pyromaniac's rocker', Alan Biciri

Fig.50 - Purity, Wilson Scott | Fig. 51 - Squish, Jeremy Blankenship | Fig.52 - Baba, Chris e Paul Massie | Fig.53 - Hulot, Catharina Lorenz e Steffen Kaz

Fig.54 - Rolling mesh, Jae-Kyu Lee e D. Lee | Fig.55 - Moon,Wouter Scheublin | Fig.56 - Bop, Alain Berteau | Fig.57 - After shave, Cédric Ragot
E assim, a CADEIRA DE BALANÇO dos velhos avós que contavam historias balançando no vai e vem sonolento e esperancoso com os netos no colo, se perpetuou no vida em que o computador comanda e a internet rege a orquestra das ilusões constantes do bem estar. Os exemplos são de uma impressionante capacidade de reviver esse móvel de uso singular. Em materiais diversos e propostas formais atuais elas se apresentam ousadas em seus conceitos e soluções diversas no ato de balançar. Algumas são verdadeiras obras de arte no sentido criativo da linguagem estética do Design. E não vai´parar por ai. (Figs.58 a 64)
Fig. 58 - Magis Voido, 2006 | Fig.59 - Hongtao Zhou, reciclavel | Fig.60 - Abilene, Wendell Castle | Fig.61 - Keinu, Eero Aarnio. 1980s
Fig. 62 - Gaivota, Reno Bonzon | Fig.63 - Emma 360, Oshar Vazquez | Fig.64 - Wishbone, Toby Howes
E culmina em 2010 com o UPDesign de alta tecnologia construtiva, ergonomico e profundamente bonito da Pouyanm.
A sua forma inovadora foi inteiramente baseada nos musculos do corpo humano e pensando no conforto e bem estar do sentar e balançar. Através de 8 almofadas liquidas preparadas para receber e distribuir as pressões dos musculos abdominais (ver o desenho abaixo da Fig.66) e 2 travesseiros para o pescoço e cabeça, o balançar flui de forma natural, como uma obrigação para atender essa função. As almofadas também regulam a temperatura do corpo, diminuindo a transpiração. O movimento de balanço foi estudado na curvatura da estrutura para o conforto e uma especie de embreagem por botão, controla a velocidade do movimento de vai e vem. È uma cadeira de balanço de alta tecnologia e Design, aliás, UPDesign porque a vida não se baseia apenas no uso, mas na variação constante da forma e função da natureza, no caso aqui, do corpo humano. (Figs. 65 a 67)
Figs, 65 a 67 - É possivelmente a Cadeira de Balanço mais completa e a mais bonita de todas até hoje desenvolvida. É o UPDesign da tecnologia do conforto e da forma inusitada! E olhem que também pode ser uma poltrona fixa!
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