CISITALIA, 1947: O carro-obra de arte que mudou o Design da carroceria

A primeira razão do Cisitalia aparecer nessa lista de carros e objetos fantásticos foi porque nasceu de um sonho. Ele provou, na agora longiqua era do após segunda guerra, 62 anos depois,  que o Design não depende apenas das grandes corporações para se tornar realidade.  O Cisitalia 202 nasceu de um sonho que virou uma obra de arte, um projeto unico. Foi a união de três pessoas atuando em ramos diferentes que tornou possivel o sonho se tornar realidade e por isso, mudou a forma do automovel.

Design é antes de tudo sonho e forma, o resto é função e conteudo, é produção e vendas, marketing e indução de mercado. No entanto, o Cisitalia 202 ousou e mudou as regras do Design de carros.

O nome "Cisitalia" deriva de "Consorzio Industriale Sportive Italia", uma empresa fundada em Turim em 1946 pelo dono de um conglomerado industrial  e ex-jogador de futebol, Piero Dusio. Na condução de um carro de corridas que deu origem ao 202, o Cisitalia D46, Dusio participou de uma única corrida no Campeonato do Mundo de Grand Prix. Contando com a parceria  de Dante Giacosa que tinha projetado o lendário Fiat Topolino 500 em 1936 e baseado nele,  projetaram o D46. Na categoria dos carros mais leves e  potencias menores, o D46 conseguiu varias vitorias. A partir dele, então veio a ideia de projetar e construir uma carro esportivo de dois lugares para ser produzido em série. (Fig,1)

 

Fig.1 - Cisitalia D46

 

O projeto da carroceria foi encomendado a varios designers da Europa, inclusive Ferdinando Porsche. No entanto quem desenvolveu de fato o modelo do 202 foi o estudio de Battiste “Pinin” Farina, que depois do Cisitalia se tornou um dos mais conceituados designers de carros do século XX. Foi o primeiro sucesso do designer que já batalhava a mais de dez anos no ramo sem muito reconhecimento. Depois do 202, o designer ficou conhecido por “Pinifarina”, unindo o apelido com o nome.

O sucesso do D46 os levaram ao ambicioso projeto de um carro de passeio esportivo. A partir da estrutura tubular e o perfil suave e arredondado do  D46, Pinifarina, como todo gênio que se preze, simplesmente recobriu a parte mecânica com placas de aluminio moldadas em fôrmas de madeira, de forma inteiramente artesanal.

Com as modificações mecânicas e elétricas necessarias  para um carro de rua, uma cabine para dirigir e  acomodar duas pessoas e um pequeno espaço para porta malas, o carro tornou-se um sucesso. A carroceria integrou-se à estrutura de forma limpa e ousada. Não tinha paralamas nem volumes desnecessários para compor o Design. Tudo foi coberto pelas linhas suaves e ao mesmo tempo, inovadoras. O “dois lugares” Cisitalia "202" GT foi uma realização estética e técnica que transformou o projeto da carroceria num pós-automóvel.

Antes da Cisitalia, a abordagem predominante para o design de automóveis, era o de definir um conjunto integrado da plataforma mecãnica (motor, chassis, suspensão, eixos e rodas), recobri-la com os volumes da carroceria seguindo essa plataforma e tratar cada parte essencial do modelo distintamente: um volume  para abrigar o motor, os farois como apêndice, outra para os passageiros e a ultima para a bagagem.

No Cisitalia não houve essa separação e a carroceria foi desenvolvida num unico volume, sem arestas, depressões, elementos decorativos, tudo fluia como uma unidade, criando uma sensação de velocidade e liberdade. Dai o seu grande mérito: o Design como determinante da forma. Os carros da epoca sentiram vergonha de si mesmos quando viram o carrinho desfilando pelas ruas.  (Figs.2 e 3)

 

 

Figs.2 e 3 - Cisitalia 202, 1947

 

O projeto extraordinário de PiniFarina foi homenageado pelo Museu de Nova York de Arte Moderna, em 1951. Na primeira exposição do MoMA em design automotivo, chamada "Oito Automóveis". Devido à feitura artesanal do Cisitalia 202, cara e demorada, foram produzidos apenas 170 unidades entre 1947 e 1952.

Da mesma forma que o carrinho está exposto no MoMA,  não poderia faltar no nosso Museu Virtual DMemória do nosso site pela sua importancia histórica e formal.

Nenhum carro da primeira década do pós-guerra foi tão importante e de forma tão inusitada quanto ele.