A FRONTEIRA DO DESIGN: AS FANTASIAS FORMAIS DE CARLO BUGATTI

O Design é a arte visual e tridimensional que tem a característica de repetir historicamente o mote com inovação formal e tecnológica. De tempos em tempos ele mostra uma face única num determinado sujeito sem negar o que foi anteriormente feito e o que virá. O Design é principalmente a arte da surpresa, do surpreendente. As vezes fica entre o real e a fantasia, mas tem que assegurar a sua premissa básica de desenvolver objetos de uso, coisas praticas,  funcionais e de preferência com fuso estético. Num determinado momento surge um cara que faz de uma simples e usual cadeira algo maior, e ai o uso se torna secundário e o resultado é a metamorfose,  que pode se manifestar por varias vias formais. A praticada pelo italiano Carlo Bugatti entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do seguinte, foi a fantasia.

Na verdade o trabalho de Bugatti se situava na fronteira entre o Design e uma estética própria, entre o uso e a arte, o que era e o que podia ser. E a fantasia não é isso?

Na virada do século XIX, com a Revolução Industrial já assentada, os designers ainda procuravam um caminho entre as formas do passado e alguma coisa inteiramente nova, algo que fosse realmente moderno, mesmo a mercê do trabalho de Peter Berhens e dos ideais estéticos dos movimentos e associações que surgiram na Europa nessa época. Um dos caminhos percorridos foi olhar com atenção ao que se fazia no outro lado do mundo e surgiu a ocidentalização da arte oriental. Bugatti seguiu uma linha mais ampla, ao misturar a assimetria da Arte Nova com o exoticismo oriental, mas o fez com autonomia e conceitos próprios. Nada melhor do que ele para afirmar isso, quando a Rainha Italiana em 1902 elogiou o estilo “mouresco” dos seus moveis e ambientes, ele alegremente respondeu: “Não senhora, Majestade, esse estilo é meu!”

E que “estilo” era esse? Era o da mais pura Fantasia Formal, a Fronteira entre o uso e o visual, entre o Design e a Arte. Bugatti podia ate usar motivos orientais ou ser influenciado pela Art Nouveau como todo artista da época, mas o seu trabalho era único, exagerado, louco e, sempre confortável, medido e racional em termos de uso.

Herdando o talento artístico de seu pai, que era um arquiteto e escultor, Carlo Bugatti nasceu em Milão em 16 de fevereiro de 1856. Estudou na Academia de Brera, em Milão e na Académie des Beaux Arts, em Paris. No final da década de 1860, começou a trabalhar para um marceneiro em Milão. O seu trabalho passou a ser conhecido pela Exposição de Artes Industriais de Milão em 1888 e nos anos seguintes, na Exposição de Turim e Paris em 1898 e na Feira Internacional de Turim de 1902. Nesse periodo  ele desenvolveu  a maior parte  de seus moveis inovadores. Foi também nesse  ano que a sua fase de um Design de experiência terminou e passou a utilizar outros materiais, sem ser muito aceito pelo publico rico que sempre gostara dos seu moveis exclusivos e feitos para poucos. A sua vida foi marcada por sucessivas mortes na familia, sempre acompanhadas por mudanças de casa e região.

Morreu em 1940, na cidade de Molsheim na Alsacia, e deixou um legado de genialidade familiar tanto que os seus filhos continuaram com a saga criativa, como demonstrou  muito bem Ettore com a criação e fabricação de um dos ícones do Design automobilístico, os inigualáveis esportivos  e exclusivos Bugatti.( consultar futuro artigo no site) (*)

A cadeira monolítica Cobra de 1902 é possivelmente o seu trabalho mais famoso. Ninguém fez igual. (Fig.1)

 

Fig.1- A cadeira Cobra é inigualável, nem estilo, nem época, é única.

Mesmo assim a Cobra teve variantes formais como se pode ver no ambiente projetado na Feira Internacional de Artes Decorativas de Turim no mesmo ano, a loucura visual do “Snail” Salon.(Fig.2)

Fig.2- Comparando o modelo da primeira imagem os colocados nesse ambiente estratosférico, surreal e futurístico, vemos que são diferentes no desenho e medidas da parte de cima do encosto, a cabeça da Cobra.

Mesmo usando motivos mouros, não há nada semelhante na historia do Design do século XX. A  vida se refaz no antigo que vira novo.(Fig.3)

Fig.3- Nem os mouros criaram isso, o conceito formal era outro.

Nele existia apena um motivo: fazer diferente. Esse negocio de influencia oriental era pouco para Bugatti.(Fig.4)

Fig. 4- Que cadeira é essa? Quem fez e onde? Quando? Foi Bugatti na Italia no começo do século XX.

E mesmo usando Estruturas Formais conhecidas o diferente se apresentava, porque era dele e de ninguém mais. Na própria Estrutura Formal ,Bugatti brincava na diferenciação formal. Quem foi que disse que os pés das cadeiras tem que ser sempre iguais? (Figs.5/6)

  

Figs.5/6-

Mas o grande barato de Bugatti, era que a sua suprema modernidade já se manifestava em plena era da indefinição conceitual, e  aquilo  que o Design tem de mais louvável e o que realmente tinha que ser, a Multivariação Formal, negada pouco anos depois pelo espírito destruidor do fordismo do modelo univariado e que até hoje continua como uma praga.

Reparem nos resultados formais abaixo: além do conceito inovador da cadeira com 4 pés unidos na frente e separados atrás, os assentos, espaldares e detalhes formais assumem diferentes  configurações.

   

As suas poltronas não seguiam um estilo definido, eram o que ele criava no momento, sem modismos ou compromissos com a época.

 

 

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: como esse banco!

Tudo então era o que Bugatti era: exclusivo, desafiador e único em tudo. Confundia o uso com o visual, o material empregado com a confecção, a vida pratica com a arte do inconformismo. Em alguns exemplos de moveis, não sabemos exatamente ao que ele se propõe em termos de uso. Pura fantasia do Design!

Mesmo assim, ele inovava o uso, ao fazer de duas poltronas unidas um sofá sem ser propriamente isso; a fantasia valia tanto quanto o uso, numa simetria contagiante e onírica. Reparem que até luminárias podem ser incorporadas como elemento estético.

Mas o uso explícito do mobiliário não foi menosprezado, a finalidade podia se cumprir contanto que fosse outra.

 

  

 

E volta a confundir e surpreender o uso.

GÊNIO É GÊNIO!

 

REFERENCIAS

www.apartmenttherapy

www liveauctioneers.com.

www.architonic.com

www.bugatti.com

Carlo Bugatti: Desk (1970.181.3) | Heilbrunn Timeline of Art History | The Metropolitan Museum of Art