ISSO É DESIGN BRAS(Z)IL: JULIAN KRANTZ

Umas das peças mais bonitas do Design de mobiliario em todas as epocas é brasileiro, a poltrona Suave da designer paulista Julian Krantz. È diferente mesmo! Ninguem na historia desse páis e no Design, a partir da Revolução Industrial fez algo tão bonito e diferente em mobiliario de madeira, mesmo sendo produzida artesanalmente. É uma escultura de sentar confortavelmente, uma forma organica que nos atrai e nos convida para usa-la. Ajudada pela beleza dos veios da madeira amazônica montada em laminados maciços. a peça é fantastica. Atraente, original e unica. E exclusivista no sentido formal e de uso: é para poucos.  (Figs.1 e 2)

julia-krantz-at-r-20th-century-lc860_p9.jpg    julia-krantz-at-r-20th-century-lc860_p92.jpg

Figs.1 e 2 - Poltrona Suave

 

Como também é todo o trabalho de Julian Krantz realizado em placas laminadas de madeira unidas como volumes esculpidos. Os outros modelos que seguem a forma de concha – tradicionalmente usada pelos designers e que nos deram exemplos formais de grata beleza na historia recente do Design - não deixam nada a dever à Suave e são complementares à estetica  da madeira maciça. A base formal dos quatro pés é mantida mudando o formato, as dimensões e os angulos ergonomicos da relação assento-encosto. E conforme muda a madeira, muda a textura e o efeito visual. Como na poltrona Maia que segue o mesmo conceito: ousadia formal numa construção aprimorada.(Fig.3)

 

Fig.3 - Poltrona Maia   

                                     

O Sofá Guell parece uma pedra esculpida irregularmente, mas é extremamente atraente na sua aparencia barroca. (Fig. 4)

Fig.4 - Sofá Guell

 

No entanto, essas três maravilhosas peças em conceito e forma, são pesadas e isso dificulta muda-las de lugar. São para ficar num espaço de destaque numa casa burguesa que aprecia e paga caro para ter uma peça exclusiva, como uma obra de arte. Tem também uma aparencia fria. Não podia ser de outro modo, dado que a madeira é fria e adequada ao clima tropical.

As pequenas e grandes mesas abaixo seguem a onda natural com a base estrutural imitando troncos disformes e o tampo pode ser qualquer coisa que o valha. A forma expressa o trabalho artesanal e são “naturais” sem querer ser, tipo “quem faz é o designer e não o artesão (Figs.5 e 6)

julia-krantz-at-r-20th-century-dt314_p3.jpg          

Figs. 5 e 6 - Mesas Baum  e Diju, parecem fitas por um artesão de beira de praia famosa.Bem brasileiras!

Até chaise lounge a criativa Julia Krantz consegue obter do laminado de madeira maciça, com conforto sem perder a beleza jamais, mas com o enorme peso que o nome da peça sugere. É para ficar num espaçoso lugar interno sem mexer: o móvel-imóvel. Contraria o conceito básico de uma chaise lounge que é a mobilidade e gasta muita madeira, mesmo sendo certificada. E muita sobra, sobra na confecção! Mas, ninguem jamais fez igual no Design moderno, e assim já se basta. (Fig.7) 

plywood lounge bed chair

Fig.7 - Chaise lounge Baleia, Linda de morrer e pesada de viver.

 

Porém o fecundo trabalho de Julia K. não fica só nesse negócio de fazer conchas tipo esculpidas na madeira, ela tambem  é prodiga em outras fantasias formais do qual Design contemporaneo é rico e ela não se perde em frivolidades modais. E inventa e brinca e “sarta de banda”, faz um Design cheio de surpresas volumétricas em arestas repicladas e unidas num grande banco com espaldar ou em arestas salteadas numa mesa circular. De uma forma ou de outra, ela acaba fazendo uma continuação mais aberta e escancarada das poltronas maciças. Como se mostrasse: é assim que faço, gente! (Figs.8 e 9)

 

Banco Bigorna. Por Julia Krantz. 

Fig. 8 - Banco Bigorna | Fig.9 - Mesa Radial Ouriço

Quando Julia K. entra na seara da “normalidade estética” do Design, o tradicional surge porém com toques de finura e bom gosto. Mesmo com os antigos e ultra usados “4 pés” de suas cadeiras (tirando a primeira da prole, a Tripé) tem algo de diferente e arrebatam suspiros dos bajuladores do Design burguês exclusivista. O que devia ser o contrario porque são exemplos de consistencia formal e construtiva. São leves, bonitas, bem construidas e  que poderiam entrar em escala de produção. Com isso o estigma de Exclusivismo Formal e de Uso que é uma das características do seu trabalho, cairia por terra e atenderia uma demanda bastante grande de aficionados e consumidores ávidos pelo “Bom Design”. A cadeira Tripé que começou a sua carreira já demonstrava a ousadia e a inovação formal da suas idéias, é ao mesmo tempo, esquisita e linda, equilibrada sendo desequilibrada, enfim, diferente. A Slide é um trabalho bem legal: o encontro entre o pesado de suas maçiças poltronas anteriores com a leveza formal que uma simples cadeira deve ter. Já Weg tem um conceito formal diferente, pois foi feita em parceria. (Figs.10 a 12)

 

    

Figs. 10 - Tripé | Fig.11 - Weg (com Morito Obine) | Fig.12 - Slide                        

 

Mesmo quem duvide, Juila Krantz  consegue ser “normal” mesmo de perto quando o seu Design se esprai em outras divindades de uso, como em aparadores e nas nossas mesas do dia a dia.(Figs.13 e 14)

 

 

Fig.13 - Aparador | Fig.14 - Mesa

No entanto, cabe aqui uma ressalva, não somente quanto ao trabalho de Julia Krantz. Está se tornado moda no Design brasileiro exaltar o emprego das madeiras da Região Norte por parte dos designers. Esse negocio de “madeira certificada” é um perigo e nunca se sabe realmente se o tal do selo FSC funciona a contendo. O dito “manejo sustentavel” não se sustenta nem que queiram os bem intencionados. Imaginem se o Design brasileiro for altamente valorizado no exterior e os designers em bloco resolverem fazer moveis só de madeira, como ficaria a tal sustentabilidade?

Catuaba, Ipês Amarelo e Roxo, Louro Faia, Faieira, Vinhático, Roxinho, Sumauma, Muiracatiara,Cabreuva, Jatobá, Sucupira, Cumaru, Figueira, Piquiarama, Acapu, Pau Cetim, Tamaquaré, Tauari, Breu Vermelho, Copaiba, etc.etc.etc.

São especies lindas de morrer que desde a década de 1970 começaram a se perder por conta da avassaladora devastação das matas para criar gado. O estado de Rondonia já era, o Acre está indo pro brejo e ninguem conseguiu segurar a mortes dessas especies no sul do Pará e no Mato Grosso. Essas madeiras nobres que não existem em nenhum lugar do mundo, eram usadas como produtos e sub produtos da construção cívil, agora estão sendo super valorizada na construção de mobiliario por conta de alguns designers brasileiros.

Evidentemente que é mais racional usar as diversas especies citadas acima, no  Design de mobiliario, do que  fazer produtos como portas, alisares, ripas, caibros e um monte de outros produtos para a construção civil. O custo ambiental é infinitamente menor e valoriza o Design brasileiro. Mas,

Por que não utilizar madeiras de reflorestamento, reciclar o que deixou de ser usado e mesmo praticar um Design onde o reaproveitamento das sobras da manufatura seja o objetivo das fantasias formais dos designers?

Só não podemos esquecer a lição ensinada pelo nosso inigualável jacarandá, hoje praticamente extinto. E um dos responsaveis por essa tragédia foi o primeiro designer a ser reconhecido no exterior,  o grande Sergio Rodrigues com a sua Poltrona Mole de jacarandá, conforme ele mesmo admite.

Prestem atenção designers!