MAIS UMA VEZ LOEWY: Coldspot 1934, o primeiro modelo "linha branca" de fato e o marco do consumismo americano
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Fig.1 - Ice Box do começo do séc.XX
Fig.2 - (A) Caixa de gelo norueguês, o gelo era colocado no recipiente acima da porta; (B) Típico modelo vitoriano do séc. XIX, de madeira e revestido de zinco; (C) Modelo usual no começo do séc. XX e que durou muitos anos no Brasil, utlizado em açougues e no comercio em geral.
Fig. 3 - Refrigerador de madeira
Fig.4 - GE Top Monitor, 1927 | Fig.5 - GE, 1931

Fig.6 - Sears Coldspot, 1931
Fig.7 - Kelvinator 4, 1929 | Fig.8 - Frigidaire, 1935
Fig.9 - Sears Coldspot, 1935 | Fig.10 - Sears, 1940
O processo e a cultura de conservar os alimentos é uma das atividades tão antigas quanto o cozimento ou lavagem de roupas. Essas duas atividades humanas que formam culturas se tornaram objeto de Design na era industrial pela sua importancia no dia das pessoas.
No começo, o homem utilizava a neve e o gelo natural, e posteriormente, o sal foi utilizado para guardar o alimento seco. Sabe-se que os chineses no sec.I AC, armazenavam alimentos em recipientes, e os egípcios e indianos faziam ou coletavam o gelo à noite e o guardava durante o dia em buracos lacrados e sem luz. No século VXIII, os ingleses construíam cubículos ou quartos para conservar o gelo com sal e serragem, e no começo do século XIX, o gelo era vendido em caixas ou tonéis de madeira para a conservação dos alimentos nas residências e estalagens.
No final do século XIX, o congelamento já era utilizado nas fazendas americanas por meio das conhecidas “caixas de gelo (ice box)
“
Feitas de madeira revestidas internamente com folhas de zinco, com as portas para o acesso aos compartimentos de congelamento eram sanduiches de madeira com varios tipos de materiais isolantes para manter a tempertura interna baixa. Um bloco de gelo era armazenado no compartimento acima da caixa fazendo com que o ar frio circulasse pelo interior. A troca do gel ocorria quase diariamente e o usuario comprava os blocos de gelo dos frigoríferos que os fabricavam por processos químicos e mecânicos. Era comum nas residencias rurais americanas no começo do século XX, esses rudimentares refririgeradores.(Fig.1 e 2)
Os “ices box” como eram chamados só viraram refrigeradores de fato quando a eletricidade e o circuito completo de refrigeração foi intoduzido no inicio da década de 1910. Ainda era considerados como autènticos móveis de madeira e o esse aspecto formal se conservou por anos. No Brasil foram e ainda são usados nos açougues, mercados e na zona rural.(Fig.3)
Em 1911, a General Eletric em Fort Indiana, apresentou uma unidade de refrigeração feita de madeira para ser utilizada nas residências, a partir do invento do monge francês Abbé Marcel Audiffren. Em 1915 surgiu o Guardian Frigidaire, desenvolvido por Alfred Mellowes, que seria o primeiro refrigerador doméstico produzido em escala industrial.
Porém quem o popularizou foi a Kelvinator fundada em 1914, com o Modelo 4 (pés cúbicos de capacidade). Na continuidade a empresa introduziu o controle automático de temperatura.
Em 1923, havia 56 empresas nos EUA que usavam no processo de refrigeração o dióxido de enxofre, cloreto de metila, ou gases de amônia, que eram perigosamente tóxicos. O sistema de refrigeração passou a ser seguro apenas a a partir de 1930 pelo uso do gás freon descoberto pelo químico Thomas Midgely. Todos os fabricantes passaram a usar o freon, abrindo as portas para o uso do refrigerador como objeto dómestico e comercial indispensável e seguro.
Apesar da resistencia em mudar o aspecto formal de móvel de madeira do refrigerador, ao longo da década de 1920, surgiram novas fábricas e as caixas começaram a ter uma forma definida. Com substituição de chapas aço e do alumínio no lugar da madeira, as caixas refrigeradas passaram a ter formas semelhantes aos atuais modelos.
A GE lançou em 1927 um refrigerador que durante anos prevaleceu como um icone do Design desse objeto de uso basicamente dómestico, o “ Top Monitor Refrigerator”, com o compressor em forma cilindrica colocado em cima do gabinete. (Fig.4).
O apelido Monitor era devido a sua semelhança com o formato de um avião de caça usado na I Guerra. O seu Design foi aperfeiçoado ao longo dos anos tornando-o mais limpo de leve no aspecto formal. Foi o primeiro modelo construido inteiramente de chapas de aço, dai a sua importância para a historia do refrigerador doméstico. (Fig.5)
Quando o refrigerador elétrico Coldspot surgiu em 1928, foi de certa forma uma novidade. Os primeiros refrigeradores eram caros na produção e na manutenção. O Coldspot, no entanto, teve aceitação publica imediata, e o modelo de 1929 foi o principal ponto de interesse para os visitantes da Exposição Internacional de Paris naquele ano. A Sears sabia que havia um grande mercado para os refrigeradores nos EUA, mas os altos custos impedia a maioria das pessoas de comprá-los. Assim, a Sears decidiu conceber o seu próprio refrigerador e para enfrentar o mercado resolveu desenvolver um modelo de 6 pés cúbicos e vende-lo ao preço do de 4 pés cúbicos, da maioria dos fabricantes. Contratou Herman Price, um engenheiro de refrigeração bem conhecido, para ajudar com o projeto. (Fig.6)
Dois anos após o lançamento do Monitor Top de 1929, o modelo Quatro Kelvinator estreou sem as visíveis" pernas ". O compressor foi abrigado dentro de uma caixa branca e sem pernas. O sucesso foi imediato e foi o primeiro modelo a ser aceito maciçamente. O formato básico do refrigerador surgira para ficar.(Fig.7)
Já não era mais um móvel de madeira nem um refrigerador com cara de refrigerador, sem o estranho compressor colocado no alto e o gabinete com pernas avantajadas. Mas, ainda era um objeto feio e sem identidade formal. Como também os pés avantajados e os modelos com compressor a vista no alto do gabinete continuavam a imperar no ambiente doméstico, como Frigidaire, uma caixa branca com maçanetas enormes e pés enormes e sem sentido (Fig.8)
Isso mudou quando em 1934, Raymond Loewy entrou para redesenhar completamente o Coldspot. Foi o marco para o Design entrar no ramo dos refrigeradores elétricos e inaugurar uma nova forma de vender aparelhos elétricos domésticos, a tal “linha branca”
Era uma peça grande e pesada se equilibrando sobre pernas magras e muito altas. Painéis e molduras sem graça e uma maçaneta de má qualidade completava o desajeitado conjunto. "Um armário para sapatos", fulminou Loewy.
Como se não bastasse a feiúra, as prateleiras, confeccionadas com arames de aço e montadas à mão, acabavam enferrujando. Loewy estudou o problema e começou a resolvê-lo pelo exterior, como sempre.
Como já tinha feito no mimeógrafo da Gestetner, eliminou os pés inúteis, substituindo-os por uma gaveta, o que não só aumentou a capacidade da geladeira como ainda eliminou o inconveniente de limpar essa área de difícil acesso. A maçaneta foi trocada por outra, elegante como a dos carros de luxo. A porta foi redesenhada de modo a produzir um som que indicasse estar hermeticamente fechada. Em seguida, Loewy mandou fazer prateleiras das mesmas chapas de alumínio perfurado usadas na fabricação de automóveis, à prova de ferrugem. (Fig.9)
O projeto seguiu o principio Loewy de fazer dinheiro com uma idéia original e reprojetar o produto constantemente nos detalhes formais, conceito ainda não usado pelas industrias da epoca, a “melhoria constante”. Com tal principio, produtores e vendedores podiam provocar no consumidor o desconforto de achar que o seu exemplar estava ficando obsoleto, incentivando-o assim a trocá-lo por outro, aparentemente melhor. Nâo foi por menos e a Coldspot saltou de 60 000 para 275 000 unidades vendidas por ano. A certidão de nascimento da sociedade de consumo: "Não há Design mais belo do que a da progressão nos gráficos de vendas", disse Loewy.
Foi o inicio da chamada “linha branca” dos objeto de uso domésticos elétricos e o marco do consumismo americano.
Em 1940, já se via o refrigerador doméstico com linha curvas e com jeito de Design, uma forma definida com identidade própria.(Fig.10)
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