UPDESIGN 1: Cutucando a Fera

 

 “O artista deve sempre se opor, de algum modo, à sociedade con­tra o conhecimento recebido. Deve estar preparado para explorar caminhos estranhos, para rejeitar o saber aceito, para confundir, contestar e construir novas formas. O Artista é por natureza quase um marginal; Van Gogh ofende o sentido que temos das cores, Wagner, nossas idéias herdadas sobre o que são sons aceitáveis.”

Do livro O Romance, de James A. Michener

1-PRINCÍPIO

              A idéia do presente trabalho é  em sua essencia, apontar novos rumos para os objetos que usamos no nosso dia a dia. O texto não procura dar muita atenção ás diferentes abordagens sobre o que é ou o que foi Design e as suas manifestações teóricas, filosóficas e práticas que ocorreram na recente história da forma industrial, provenientes tanto da área acadêmica, como de grupos, movimentos ou escolas estéticas e filosóficas. Essas abordagens aparecem apenas para fortalecer o nosso ponto de vista e ora são negadas ora afirmadas e por isso mesmo, o texto está sujeito a chuvas e trovoadas. E é justamente isso a base dos comentários aqui colocados, como é o próprio Design: tem momentos de sol brilhante, mas sempre sujeitos a chuvas e furacões.
               
                     Eu acho que o Design não teve uma evolução teórica na medida da sua evolução prática e somente acompanhou a técnica e se adaptou aos novos tempos tecnológicos, mas não cresceu como Ciência e Arte da Forma Industrial ou Manufaturada. Do ponto de vista do modelo único o Design até evoluiu como Arte, pois fez cultura ao mostrar uma estética própria, mas como Ciência ainda está em níveis primários. Creio que seja possível alcançar patamares mais altos nessa direção.

                Além disso, não pretendemos de forma alguma, exultar o maniqueísmo entre forma e função ou entre outras interpretações históricas sobre a teoria do Design. Só achamos que o Design é o mesmo de antigamente e permaneceu assim porque está preso ao que era desde o seu inicio e ninguém faz nada para mudar essa situação. Isso acontece porque ninguém olha para dentro do Design, como ele se manifesta enquanto sujeito e predicado. Trocando em miúdos, o fato é que ninguém deu a importância devida a este fenômeno humano que consiste no desejo e uso de um objeto utilizado no cotidiano das pessoas e o Design transformou-se em algo puramente descritivo e não suscetível. E a forma do objeto de uso, enquanto dado visível e atingível, não está de acordo com este fenômeno: a ela não foi dada a devida importância, por se prender sempre a um resultado final único e não como desenvolvimento multivariado. Indo mais além, enquanto a forma de uso se atrelar inexoravelmente ao modelo unico em série, não participará integralmente do sistema “sociedade-individuo-objeto”, porque não alia o desejo à necessidade, não se importa com a cultura e a identidade do lugar e principalmente nega o ato criativo e perceptível da escolha individual, base da existência humana.

              O Modelo Único na série é apenas uma parte do sistema produtivo e de consumo, mas é perniciosa enquanto integração do homem com a sua cultura e a  escolha individual, pois o objeto é desenvolvido para atender ao lucro e ao mercado e dirigido para grupos e não para o individuo( como ser-social) e sociedade.

             Nos últimos tempos, a contribuição de valorosos pesquisadores e estudiosos sobre os aspectos da Teoria do Design foi muito mais do que positiva, mas eles não chegaram à base da questão. A meu ver, os nobres pensadores apenas ficaram traçando paralelas entre o Design e algum tema: ora em reação a uma visão formalista do produto; ora em negação às limitações da tese funcionalista; ora inserindo o Design como fenômeno do contexto social e ora ligando-o à semiótica, à psicologia, biologia  ou outra matéria em voga.  Na verdade, eles usam o Design como teoria e não como uma efetiva teoria do Design. Além disso, esqueceram que toda forma artificial assim como a natural é perfeitamente atingível, em termos artisticos e cientificos.

             Ou seja, a forma do objeto de uso é sempre previsível e cientificamente provável e não precisa de teorias alheias: é só olhar com mais atenção para os processos produtivos naturais e compara-los com os artificiais. Por outro lado, nenhum desses briosos estudiosos chegou sequer a considerar o Design como Arte e muito menos como uma possível Ciência Aplicada e alguns, como Maldonado, Bonsiepe e outros, negaram qualquer possibilidade quanto a isso. Assim, ficaram na linha limítrofe entre o ser e o que fazer, justamente porque procuraram sempre associar teoricamente o Design a outras atividades sejam elas de natureza científica ou técnica ligadas ao desenvolvimento em si do produto. Não viram o Design pot dentro.

              O Design sempre se ligou a um conjunto de técnicas e métodos científicos alheios e nunca teve uma atitude científica própria, relacionada ao desenvolvimento formal dos objetos de uso, às formas artificiais. Inconscientemente - por desconhecimento ou ingenuidade- ou conscientemente - por negação ou favorecimento-  os nossos históricos pensadores do Design não conseguiram ver o objeto de uso além do modelo atrelado à série e  não perceberam que o produto finalizado  representa apenas uma resposta no tempo e um resultado particular de um processo. O modelo na serie é sempre um resultado especifico, um momento do processo.  Em outras palavras, os pensadores não detectaram que o modelo possa ser independente da série e mais ainda, que ele pode ser a própria série, ser uma causa e não um efeito. O modelo tem que ser observado, tanto a nível teórico como prático, não como um Modelo-Formal -, particular, repetido e único-, mas como Forma-Produto, - geral, multiplicado e variado. (Fig.1)

 


Fig. 1- Fordismo, a primeira linha de montagem de Modelo Unico: efeito fundamentalista que se perpetua.

 

                     Nessa primeira década de século XXI tudo parece igual aos ultimos  decenios do anterior. A globalização da economia já atinge as culturas, as idéias e os pensamentos e caminha para uma globototalização. Diante dessa estagnação cultural e filosófica advinda do neoliberalismo sem fronteiras, o Design pegou carona na mesmice. Nessa área tão importante para os usuários de objetos do cotidiano, precisamos urgentemente de idéias inovadoras, libertárias e até revolucionarias, senão o Design não vai cumprir devidamente o seu papel na história do homem e bem atender desde as grandes metrópoles ao simples mortal no mais recôndito lugar.  Precisamos cutucar a fera, para tentar alguma coisa, sentir a sua reação.  Dai surgiu este primeiro texto do UPDesign.

             E enquanto o Design estiver preso aos cânones clássicos em que se submeteu desde a sua afirmação como atividade inerente ao ser humano, continuará nesse milênio sendo o mesmo, se não fizermos nada para influenciar e mudar esse estigma. O Design tem que parar de ser um ato e virar fato.

 

Cutucar a fera é que nos resta fazer de imediato!

 

2- MEIO

Design há muito tempo que eu estou observando com o maior cuidado esta palavra mágica já contextualizada na produção e no uso dos objetos industrializados, mas ainda não reconhecida no espaço dos excluídos do mundo globalizado e na mente da maioria das pessoas. Aliás, estou observando esse fenômeno moderno desde que me enten­di como gente, quando fazia gaiolas de passarinho, caminhões de madeira com fechos de mola de fitas de aço, botões de futebol de osso e casca de coco e outros pequenos produtos artesanais. Quando entrei na Faculdade de Arquitetura, passei a me interessar pelo Design propriamente dito, com seria de se esperar. A partir daí, além de desenvolver produtos de uso variados, pensei muito sobre o assunto no sentido teórico e formal.

              Nos últimos anos observei que quase ninguém tem escrito de verdade (ou na minha  verdade...) sobre uma Teoria do Designem qualquer lado do mundo civilizado. O que existe nessa área, é um conjunto de idéias contidas num conhecimento especulativo ou construções imaginárias sobre o domínio e o conceito do Design; algumas noções abrangentes e métodos organizados com características hipotéticas voltadas para a metodologia do produto e doutrinas e regras advindas das épocas históricas da tecnologia e do feitio do produto, mais ou menos enumeradas numa sistemática. Isso tudo, no entanto, não constituem uma teoria.
 
             O que mais se aproxima de uma Teoria do Design, por incrível que pareça, veio de áreas fora do âmbito do desenvolvimento e pesquisa do produto em si, como por exemplo, pela psicologia da gestalt e da ação cognitiva, pelas idéias de usabilidade e design emocional de Donald A. Norman, da bionica, etc. Significa dizer que o suporte teórico da-se através da ótica do comportamento, do uso e da percepção da forma do objeto, do aproveitamenteo da forma natural, da sistematica do desenvolvimento do produto e não do que realmente é afeito ao Design:  o estudo do produto em si, da sua origem, forma e conteúdo.

               Nem os pensadores históricos do assunto como Bonsieppe, Dorfles, Maldonado e outros, conseguiram chegar perto de acertar na mosca.  O que na verdade prolifera na seara do Design são algu­mas solúveis teses universitárias, dezenas de seminários sobre o assunto, artigos de revistas escritos por especialistas de ocasião e até textos sem seriedade de neófitos que trabalham nas mídias (que apenas informam, mas não explicam de fato). O único fato digno de nota vem de alguns poucos livros ou trabalhos consistentes em revistas técnicas que se preocupam em dar um cunho mais sério sobre a atividade do Design. Nessa área do conhecimento humano, ao mesmo tempo tão glamorosae controver­tida, o certo é que ninguém se preocupa com uma Teoria do Design, em qualquer instituição que se preze, no Brasil e no mundo, porque simplesmente ela ainda não existe.

              O que significa dizer, por outro lado, que apesar de existir um conjunto de conhecimentos teóricos, práticos e técnicos relacionados à matéria Design, isso não particulariza uma teoria especifica para a área em questão. Alem disso, ainda não se materializou no contexto do Design, uma constante interrogação dos seus métodos no sentido de objetivar princípios válidos e sérios para uma sistemática e coerência no seu interior, da sua razão de ser, que o possam levar para uma atitude cientifica. Tudo o que se apresenta até então como certa teoria, não atende o que é o mais importante no Design, como se apresenta, se comporta e se expande o produto de uso ou a forma artificial de uso.

              Existe há muito tempo um estudo empírico e sistemático sobre o desenvolvimento das formas naturais, mas nada sobre as formas artificiais criadas pelo homem. Como não há um estudo sério sobre as formas artificiais, não há uma Teoria da Forma de Uso e conseqüentemente não rola de verdade uma Teoria do Design. (Fig.2)

Artforms in Nature Artforms in Nature
Fig.2 - O estudo sistematico e empirico das formas naturais é um fato.

 

              Por extensão, não vemos nas mídias escritas, faladas e visuais uma critica do Design. A não ser de forma leve e discreta em algumas revistas especializadas, artigos oriundos das academias e nos poucos livros que tratam da história do Design, a crítica praticamente não existe para que o homem comum possa se orientar e escolher ou negar. E sempre dá a impressão que a crítica ao que é feito no Design atual é um tabu: ninguém analisa, fala mal ou bem de forma criteriosa ou pelo menos, com bom humor. Além disso, poucos se dedicam na análise histórica do objeto de uso e do Design em todas as épocas, como fizeram os pioneiros Nicolaus Pevsner (Pioneiros do Desenho Industrial) e Herbert Read (Art na Industry), e na atualidade, John Heskett (Design).

               Carecemos de pensadores como aqueles da década de 1960:70; os portais de Design e as mídias não publicam artigos sobre estudos de caso e análise critica dos produtos de uso. As teses e alguns trabalhos sérios mostrados nos congressos de Design permanecem fechados no ventre acadêmico e mesmo assim, são raros os que se dedicam a critica e a teoria.  Não há mais movimentos, escolas de princípios e novas idéias, propostas loucas e rebeldias. Parece até que os mitos morreram e não nascem outros, as utopias não mais virão e o sonho acabou. Brincadeira!!

             
Tecnicamente falando, depois que a Bauhaus e a sua magnífica turma – apelidadas posteriormente por alguns coadjuvantes do Design contemporâneo de funcionalistas, formalistas ou não sei o quê mais -, e a famigerada Escola de Ulm, - com seus teóricos terceiro-mundistas e suas metodologias hedonistas que buscavam os fins, mas esquece­ram os meios -, desapareceram da face da Terra, nada de realmente novo tem acontecido no mundo das coisas relaciona­das ao desenvolvimento da formas de uso. Mesmo assim essas duas sábias escolas de ensino de Design deixaram os seus legados e espalharam pelo mundo os seus aforismos e algumas metáfo­ras, detonando novas abordagens sobre como fazer o objeto que o homem usa no seu dia a dia. Mudaram a forma de pensar o objeto de uso no contexto industrial e valorizaram sobre maneira a ativi­dade do Design e dos designers. Mas, infelizmente, essas escolas não são mais como foram nos seus tempos de glória e as centenas de outras escolas que surgiram após nos ambientes universitários do mundo inteiro, descartaram o legado deixado por elas e ainda buscam novos caminhos para o Design.

                   O mundo mudou no aceleramento e refinamento dos processos tecnológicos, na economia e sistemas de governo, no tamanho e qualidade das populações, mas ainda não resolveu o problema da fome e da desi­gualdade social. E ainda mais agora com o problema maior que é a própria sobrivivencia do planeta. O Design, seguindo esses passos, se tornou uma ferramenta a mais para ampliar o fosso entre o homem e o objeto que ele utiliza para as suas necessidades básicas, exatamente o contrário que se esperava dele quando as duas escolas propagavam os mitos da “boa forma”. E, no mundo atual, tão cheio de conceitos supérfluos propagados pelas mídias e absolutamente carente de novos mitos, as duas antigas escolas ainda ditam hoje, pos mortem, a mesma filosofia de desenvolvimento do produto criada por elas.

                Atualmente com toda a tecnologia no trato de materiais e nos processos modernos de fabricação, no uso exacerbado da informática em todas as esferas do conhecimento humano e o oficio de desenvolver com apuro produtos de uso chegando cada vez mais às classes médias dos países desenvolvidos ou globalizados, podia se esperar que surgisse um novo paradigma no Design e uma nova forma de desenvolver os objetos do cotidiano. Mas, isso não ocorre hoje. Não há um novo paradigma nem novos mitos e (ou) utopias e por isso, não há um novo Design.

               No que se refere ao desenvolvimento formal e ao uso do objeto, tudo continua amar­rado aos velhos conceitos do Design Moderno Ortodoxo di­fundido e assegurado por aquelas duas escolas. Como resultado, o antigo e superado negócio de fazer modelos unicos repetidos em série de produção, ainda prevalece como a única alternativa conceitual e pratica de se fazer Design, em qualquer lugar do mundo. A escala de produção serial de modelos repetidos ainda persiste como a única alternati­va do Design que serve para assegurar o lucro dos produtores dos ob­jetos de uso, sem atender convenientemente os usuários em seus deleites de consumo ou das suas necessidades.

               Tudo ainda acon­tece em função do desenvolvimento ou criação do modelo único ou especifico e ai é que está o cerne do problema, o erro histórico do Design que até hoje ele não conseguiu superar: o paradigma formal do objeto industrial ainda é o mesmo do que era há mais de um século atrás. O conceito formal e produtivo  ainda é o do fordismo. Ainda bem que para servir de consolo, surgiram no meio desse um caminho algumas manifestações metafísicas de se fazer um novo Design, como, entre outras: a Memphis, o antidesign, o pós-modernismo, o Design corporativo, etc. No entanto, essas atitudes não surtiram efeito nenhum, passaram como poeira fina e deixaram ao sabor do vento, apenas vestígios de mudanças ou inovações na Arte e Ciência do Design.

 

Praticamente falando, depois da linha de produção serial móvel implantada por Henry Ford no começo do século XX, ocorreu uma revolução no sistema produção-consumo. O conceito fordiano foi aplicado nos demais setores da produção industrial do objeto usado pelo homem comum, mas, além de estabelecer na pratica a cruel divisão de trabalho adquirido da excrescência taylorista, também perpetuou a ditadura da forma única do objeto industrial. Estava criada a base para o desenvolvimento de produto, foi  posteriormente fundamentada no conceito e na pratica  por Bauhaus-Ulm ,e ai  firmando-se definitivamente. A partir daí, o oficio do Design se tornou uma “fazedor de modelos ou pseudos modelos novos e continua a formar no tempo e no espaço, anti- heróis do produto em série, único em forma, repetido em função e imposto às massas como engano e como falso mito.

                O modelo, único e inexorável, como foi pensado em tese, concebido em projeto, realizado em protótipo, contido em forma pelo custo e pelo lucro, controlado e propagado pelo marketing e mesmo difundindo atualmente como inovação tecnológica e projetu­al com alegorias do tipo, clínicas de design, plataformas compartil­hadas de produção, eco-design, ainda continua a ser a regra primeira, o único recurso e a última quimera de um Design clássico, sem novos caminhos.

                    Essa norma é propagada a todos os cantos e a todos os incautos, como o paradigma imutável da existência for­mal do objeto de uso. O Design-fazedor-de-modelos únicos existe na prática porque ainda existe no conteúdo, dentro de uma visão estreita e mal colocada que a teoria do Design não absorveu ou não adjudi­cou e ficou perdida no tempo e sem utopias. Apenas sobrou o fato cul­tural e mesmo assim, mal colocado: o objeto-evento como mídia enganosa e como manifestação unilateral de soberbos designers, que nos deixam seus bons exemplos formais e péssimos exemplos individuais por propagarem o mito formal do objeto de uso único. E por atrás deles, vem quinquilharias espalhadas pelo mundo afora e consumidas sem razão nem emoção pela multidão de incautos consumistas.

E teoricamente falando, nem novos e saudáveis pensadores aparecem hoje para continuar a saga daqueles iluminados seres que surgiram a partir da década de 1960 ou um pouco mais, - como, Décio Pignatari, Aluisio Magalhães, Bruno Munari, Baudrlliard, Maldonaldo, G.Selle, Bonsieppe, entre outros -, que nos levaram para uma época de repensar o Design e nos trazer alguma real novidade sobre o que fazer sobre a forma de uso. Esses antigos pensadores mostraram que o Design é uma atividade importante para as nossas vidas e nortearam a nível teórico e pratico o que poderia acontecer com o nosso dia a dia de trabalhar, comer, dormir, deitar e sonhar. Basta olharmos para a academia de hoje para não nos deixar mentir, com seus especialistas de atividade-meio e suas teses como atividade-fim, que se esforçam para levar o Design a um patamar a mais, porém ficam apenas andando em círculos, mas não atacam o problema teórico e pratico de frente. Os especialistas vêem o Design como um conjunto de teorias que suportam a prática industrial, mas não conseguem fincar os pilares de uma teoria de Design, simplesmente porque ela não existe.

                    O que ocorre hoje é gente fazendo Design na indústria e escritórios profissionais, outros falando e ensinando nas universidades, empresas que já o aceitam como algo não dispensável, mas ninguém indica um caminho- seja lá qual for - que o possa levar para outros rumos. Os poucos que pensam de fato sobre a matéria, ficam teorizando em círculos, sem bússola e sem um porto a chegar.

                    Porque não há consistência no sentido de existência do Design e a solução é usar como suporte uma teoria ou método científico (ou não) para explicar o que ocorre, mas não percebem que ele está preso a antiquados conceitos de desenvolvimento de produto em que o modelo único (re)produzido em série é a única alternativa, mesmo que a origem de concepção do produto ainda seja proveniente das únicas escolas que pensaram seriamente em Design: a Bauhaus (formalista-racionalista) ou Ulm (funcionalista-formalista), não necessariamente na mesma ordem...

                  O nosso querido Design, teoricamente, acabou virando uma arte de espetáculo. Algo semelhante que aconteceu com a pintura e a escultura nos últimos tempos, onde um grupo de sujeitos que se intitulam artistas, sem talento para o desenho não tornam a pintura baseada como plano de idéias e expressão e a escultura como espaço e como tato, e ficam propagando o fenômeno da arte em si, determinando artimanhas conceituais, coisas pessoais e subjetivas, sem atentar para a consciência da forma como predicado e o sujeito formal, como resultado. Ficam negando a pintura e a escultura e propagando instalações e divagações, como formas de arte vivas e o que existe de mais atual ou moderno, mas esquecem que a pintura e a escultura continuam eternas como sempre foram, cada vez mais com novas formas, novas técnicas, novas tendências e novos artistas.

                  E vice e versa, outro fenômeno acontece cada vez mais freqüente, mas que ninguém dar maior atenção. porque todos se encantam e ninguém grita de raiva ou de contestação: as manifestações formais do Design estão cada vez mais se parecendo com as artes ditas conceituais:    no uso, na efemeridade de passageiro e no espetáculo. Como ressultado, o Design do objeto de uso,  cada vez mais se aproxima da forma escultural, do desejo contido nos mistérios da cor e da composição. Uma feira de Design parece mais uma exposição de artes plásticas e uma exposição de arte se confunde com a apresentação de um novo produto, tamanha é a ousadia plástica e tecnológica do artista. Assim o Design acabou por virar, uma arte de espetáculo com os modelos cada vez mais se parecendo como modelos-tipo, ou seja, soluções quase abstratas com a marca pessoal de um designer famoso do momento e que não indicam um caminho para o desenvolvimento formal nato ao próprio Design.(Figs. 3 e 4)

 

Modelos utilitários que parecem objetos abstratos em nome de um Design de mera  figuração, a não ser para os seus realizadores e para a mídia...
          
Banquete Chair, 2002 - Design: Fernando + Humberto Campana                http://www.velocityartanddesign.com/Resources/vm2504.jpg                  
Fig. 3: Cadeira banquete, Irmãos Campana, 2002          Fig. 4: Cadeira  Greene Street, Gaetano Pesce, 1984

 

3- FIM

                  No entanto, sem mea culpa, o tempo foi passando e as coisas mudaram. Tudo muda na vida e nos conceitos e durante esse tempo fui observando as coisas acontecerem e o mundo caminhando para uma aldeia global formada basicamente por aglomerados urbanos que cada vez mais precisam (ou são impostos) de mercadorias diversificadas celebradas por um elenco enorme de objetos de uso. Jamais houve tempo algum na historia da humanidade com tantas opções de escolha individual em termos de ofertas de produtos industrializados ou artesanais entre calçados, eletrodomésticos, carros, móveis, midias, alimentos, etc. Em qualquer grande loja de departamentos ou centros comerciais, o numero de itens postos à venda é tão grande, que passamos horas percorrendo os corredores festivos e brilhantes do consumismo exacerbado e muitas vezes inútil no acúmulo de bens, só para escolher uma simples peça de vestuário ou de calçado.

                  Em menos de trinta anos, presenciamos uma reviravolta completa nos meios de comunicação, que nos dão uma enganosa impressão que o tempo anda mais rápido e que nos levam a um acelerado processo de integração mundial no nível da informação, e culturalmente, pelo uso comum dos mesmos objetos cotidianos. Mas de forma contraditória esse processo maligno e inevitável, acentuou as desigualdades econômicas e sociais, entre e dentro dos países e acabou perpetuando o velho Design da Bauhaus, Ulm, Ford-Taylor e Cia: o imutável paradigma formal do desenvolvimento do produto de uso do modelo serial-universal como a única forma de se fazer Design.

                  Por outro lado, o estigma do modelo único feito para os escravos do consumo, levou a atividade de desenvolver o produto de uso, - nascido ou não da pesquisa do departamento de Design de uma empresa-, sempre orientada em dois eixos ortogonais autônomos, de forma segregada e não democrática. Um dos eixos direcionado para um grupo restrito e endinheirado, com oferta de belos e caros exemplos de objetos de uso exclusivos e de marcas famosas, - como design do autor, como arte e até como interface entre algo abstrato (a vontade individual ou coletiva de consumo) e o produto -, e o outro eixo, sem Design nenhum e voltado para a gentalha com quinquilharias, gadgets e até de reles cópias de objetos de uso consagrados historicamente.

                   Supondo que o ultrajante comportamento bauhasiano-fordiano procure se atualizar nesse tempo de globalização e culpa, ao levar o modelo único a superar-se da série em que é repetidamente produzido, por força das mudanças ocorridas na ultima geração de homens e máquinas, quando olhamos para os conteúdos formais das cada vez mais crescentes funções utilitárias ou pseudo-utilitárias, somadas a cada dia por invenções banais baseadas em vontades pueris e até por força da inovação propriamente dita, a forma do produto, em sua manifestação básica e conceitual, ainda continua à mercê desses conteúdos-manifestos ditados e mantidos por alguns, seja proveniente da academia, da grande empresa, e até de uma parte esclarecida da intelectualidade e dos formadores de opinião.

                  Mesmo que a forma do modelo de hoje (e sua entourage) tenha se transmudado em algo de acordo com o nosso tempo, caracterizado por enormes ofertas que encabeçam uma lista de itens de consumo quase interminável e tenha evoluído em termos de tecnologia da produção, exatamente para atender essa enorme lista, como por exemplo, nas chamadas plataformas de produção modelar compartilhadas de alguns segmentos de uso, - nos automóveis, relógios e outros itens de grande escala-, ele continua a ser o mesmo produto único e preso à série, como estabelecido por Ford-Taylor e assegurado pelo poder das empresas mundiais detentoras do porvir da função utilitária.

                Por causa disso e no sentido geral, o aspecto formal do produto ainda continua a ser como sempre foi: o velho produto de uso dependente de alguma rala função e com uma forma única e repetida ao extremo. Assim, - mesmo que eu não queira -, a tal da função continua a determinar a forma, porque é na função utilitária que o capitalismo imperial manda e desmanda, do tipo: o que tem que ser será, porque temos isso e faremos assim! E mesmo aquela boa e dedicada empresa que prima por assegurar a equação produto/ estética/consumidor/mercado, cultivando assim uma relação mais prazerosa entre o homem e a máquina, não consegue superar-se por está presa ao velho e único sistema de desenvolver seus produtos únicos em forma e função.

               Mas todos esquecem que a forma não depende da função nem de nada e cada um faz o que quer em qualquer atividade plástica, artesanal ou não, em qualquer lugar do planeta e na mais pura emoção ou consentimento e por isso ela não controlável nem expressa por padrões de ninguém, seja empresa de mercado global ou um velho artesão de antigamente que existe até hoje para não deixar-ninguém-mentir. È só observar, entre mil outros exemplos, que a cerâmica de Brenand não tem nada a ver com a do resto do mundo, os traços de Niemeyer e Picasso são únicos, os móveis de Sergio Rodrigues e Joe Colombo nunca se confundirão com a de outros caras, etc.(Figs. 5 a 9)

 

A forma é uma manifestação não controlável, mas a função sim. A forma pode e deve ser expandida, mas a função é contida: tem uma utilidade e uso. A forma é variada, a função é única.

 

Da esquerda para a direita: 5 - Cadeira Bibendum, Eileen Gray | 6 - Cerâmicas Brenand | 7 - Picasso, La Femme aux Dês | 8 - MAC de Niteroi, Niemeyer | 9 - Cadeira Klin, Sergio Rodrigues

              Por que este fato não é seguido na atividade industrial em geral: a livre manifestação da forma como resultado do processo design + produção + mercado+ usuário? Por conseguinte, sobra para a função utilitária, o controle e a exigência da produção e do consumo, e o Design fica eternamente atrelado a isso. Por outro lado, já sabemos desde a década de 1920 com a Bauhaus, que a função como determinante da forma é apenas pré-condição de Bom Design e continuar com essa história da carochinha nos dias de hoje, é defender uma causa acima de tudo injusta, porque é na forma que tudo se realiza: o homem se expressa livremente e a natureza se manifesta com toda a sua pujança.
                          
                 E por falar em natureza, - tão esquecida ultimamente-, constantemente re-aprendemos que as funções naturais são numericamente contáveis, mas as formas relacionadas a elas, não. As formas naturais são incontáveis porque são multivaridas e multiseriadas, ao contrário das formas artificiais produzidas pelo homem que são modelos (ou pseudos modelos) formais únicos repetidos em serie. E tanto nos objetos naturais quanto nos artificiais, a função é algo que se explica, mas a forma é algo que ainda estar para ser explicada e é ai reside a grande questão a ser colocada no Design, o seu único grande erro e sua culpa. Toda forma natural pode ser cientificamente explicável, porque encerra em si mesma, uma inerente diversificação modelar: é geral, tem um comportamento próprio, segue uma lei de formação.  Mas o modelo serial, criado artificialmente pelo homem, com forma única e repetido em série, não tem nada disso e coloca o Design numa camisa de força e o impede de se soltar em termos científicos, por colocar a questão da forma como solução de um processo e não como a base desse processo. (Fig.10)

 

Speaking in Tongues 1997 - Lithograph
Fig.10 - A Multivariação Formal de um unico objeto natural (Peter Randall)

 

               Para o nosso pesar sem contentamento, o fordismo e o funcionalismo-que-gera-forma-única continuam a prevalecer até hoje como as únicas opções no desenvolvimento dos produtos de uso, se tornando um fato histórico incoerente, embora perfeitamente explicável se atentarmos para o fato de que eternamente, tudo se volta para o modelo único em forma e função repetido em milhares de unidades! Nessa conjuntura clássica de se fazer Design as idiossincrasias do modelo aparecem, como os milhões de gadgets e os objetos inúteis e feios produzidos para a multidão de pobres em todo o mundo; as peças exclusivas feitas de materiais caros e brilhantes dirigidas aos poucos ricos de qualquer lugar do planeta, e a mesmice formal dos objetos globalizados que servem às classes médias, só para dar uma idéia da insuficiência conceitual a que chegou os nossos objetos que usamos no dia a dia. Se o mundo globalizado é uma cruel incerteza, o Design internacionalizado como sub-tema é um ledo engano. Digo isso porque ele está preso a conceitos surgidos ainda na sua infância no século XIX, reforçado na rebeldia da sua adolescência nas duas primeiras décadas do século XX, revigorado mais do que nunca na sua maioridade após a Segunda Grande Guerra e indispensável na sua fase adulta, após a década de 1970.

                   Por outro lado, a extremada informatização usada atualmente como ferramenta no desenvolvimento e no marketing dos produtos, ampliou a distancia entre o Design e a produção e cada vez mais os objetos de uso não são simplesmente coisas com função utilitária, simbólica e formal, mas imagens para se vender. São objetos virtuais e visuais, não apenas produtos para serem usados no nosso cotidiano com um “bom design”, tangíveis e úteis e participando da realidade física e emocional da atualidade, assim como foram, em suas épocas: as cadeiras Thonet, os modelos T da Ford, os inesquecíveis e eternos móveis da época da Bauhaus, os fabulosos Cadillacs do sonho da indústria automobilística americana, e, inúmeros outros objetos de uso fantásticos que fizeram a real história do Design.

               Em termos teóricos e filosóficos, o problema agora não consiste em voltar a discutir antigas temáticas que não tem muito a ver com os aspectos próprios do desenvolvimento e pesquisa dos produtos de uso, como entre ser um objeto virtual ou real do ponto de vista utilitário ou estético, na relação antagônica entre a abordagem formalista e funcionalista do produto de uso e o Design como fenômeno social, etc. A discussão agora é saber-se porque o Design se tornou um fazedor de objetos únicos, e não evoluiu fora do contexto do modelo, seja ele serial ou não.

            Evidentemente que eu estaria cometendo um exagero se disser que não houve mudanças significativas nesses últimos anos na atividade de desenvolver produtos de uso. O Design já está bem crescidinho e já faz parte da cultura das sociedades mais desenvolvidas e tanto a indústria moderna quanto o usuário comum de hoje, já incorporam o Design como ato e fato. Mesmo assim, tradicionalmente não se faz mais carros como na época de ouro do estilo americano, nem relógios como só os suíços faziam e móveis e pizzas que só os italianos fazem. Apesar de alguns produtos conservarem uma tradição e uma marca regional, o Design de hoje é uma salada de inúmeros ingredientes. Um carro é criado na Europa, suas peças fabricadas na Ásia e montado no Brasil e nos EUA, com inúmeras versões modelares; bons e lindos relógios são desenvolvidos e fabricados no Japão e na China e espalhados pelo mundo como originais ou cópias muito bem disfarçadas; móveis de boa qualidade e bom design são criados no Brasil ou em outro país e confundidos como italianos;  e pizzas feitas em São Paulo são tão boas quanto em Nápoles ou Nova York. No Brasil, há pouco mais de uma década, existiam apenas 30 a 40 modelos e versões de automóveis e hoje esse número aumentou incontáveis vezes, entre as “versões” e modelos propriamente ditos, com excelentes exemplos de um Design de alto nível e desenvolvidos por designers brasileiros (seguindo evidentemente a orientação das matrizes), como os recentes Ford Ecoesport e o Volkswagen Fox, por exemplo.

              E nos últimos dez anos ocorreu no nosso país, uma reviravolta no Design de produto em todos os níveis. Os nossos móveis, talheres, roupas, calçados, etc, não devem nada a ninguém em nenhum lugar do mundo, como, entre outros, as peças-delírio dos irmãos Campana, as soluções gravitacionais de Pedro Useche, o artesanato amazônico, a vasta gama de produtos de uso domésticos da Tramontina, só para citar alguns. Programas apoiados por órgãos do governo e pela iniciativa privada deram um selo de qualidade ao nosso artesanato e aos produtos de pequenas e micros empresas nacionais, que são exemplos da diversidade e da capacidade criatividade do Design brasileiro atual. (Figs. 11 a 14)

Exemplos da diversidade e da capacidade criativa do Design brasileiro atual:

 

                      
Fig.11 - Cadeira Cone, Campanas,1997 | 12 - Banco 3L, Pedro Useche | 13 -  Objetos da Amazônia, Ethel Carmona | 14 - Produtos Tramontina
                                 

                 Ao provar essa salada de muitos ingredientes, pelo sim e pelo não é que resolvi escrever sobre o Design. Não tomei coragem, apenas resolvi pular o muro em que a maioria fica por cima, rastejando modelos inusitados de móveis ou outros objetos de uso em prol de um Design em tom menor, de um passado que já era. Mesmo que eu também tenha entrado nessa, buscado modelos inusitados e pessoais como forma de tentar fazer algo diferente dos outros, não podia ficar calado vendo o trem da historia passar. O ato de escrever sobre o que vejo, sinto e faço no Design, é antes de tudo, o resultado de uma experiência pessoal e esse texto é um esforço para apontar as suas debilidades e exaltar as suas potencialidades, tanto no nível do intelecto da atividade projetual, quanto emocional, a partir da atividade manual desenvolvida nos ateliês e oficinas que percorri.

                   Acreditamos que existe uma ligação intima e extrema entre o objeto desenvolvido na natureza e o ob­jeto criado pelo homem e o Design fez por merecer em não fazer essa ligação. O Design do objeto de uso continua a ser o do modelo único repeti­do em produção serial, contrariando o desenvolvimento multiformalizado dos objetos produzidos pela natureza, estaremos em condição de olhar com mais coerência, mais consciência democrática sobre a produção e o uso e dar mais consistência científica ao pensar e fazer Design. Uma luz no fim do túnel ainda não devida­mente acessa pelos pensadores e estudiosos e que dará um arca­bouço mais científico para o Design e mais ênfase para a arte do tato, do uso, da visão e do gosto pelo belo e pelo útil.

 

Reginaldo Sah.